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26 de Maio de 2009

"mais ou menos"

Noite de festa, noite de tetracampeões, e noite de ronda... de fugas ao trânsito para encontrar pessoas, gente que joga no Campeonato da sobrevivência, daquela Divisão que existe no outro lado do espelho que temos colado às retinas no nosso dia a dia, que vemos mas que nos custa olhar, que sabemos estar ali ao lado, à distância de um passo, de uma mão aberta, mas que não conseguimos ou não queremos tocar, ou então que colocamos na nossa agenda de eventos futuros...

Trindade, 23h50. Estacionamento junto ao viaduto. Uma multidão sobe as ruas vinda da festa, Uns ainda com folguedos e energia, empenhados em dar azo à sua alegria e aos festejos pela consagração de mais uma vitória; outros em maior numero caminham a pensar já em chegar a casa e descansar, e no dia de trabalho que se avizinha. Em sentido contrario, por entre a multidão, caminham 2 pessoas. Surpreendentemente, não precisam de se desviar uns dos outros. Vão como um fio de água de um regato por entre as pedras de um vau. Há qualquer coisa que torna o seu passo fluído, sem movimentos bruscos, sem obstáculos. Quem se cruza com eles não parece estar a vê-los, e ao mesmo tempo sabe que estão ali e cedem a passagem mecânicamente. Os olhos de ambos não se cruzam, como se o ponto final da caminhada estivesse para além de qualquer olhar ou ponto físico visível.

Os 2 não vieram pela festa, não trazem chachecóis ou bandeiras. Vêm só visitar um amigo. O Sr. F., que mora ali, num lugar improvisado de cartão e plástico, que pouco consegue para comer senão aquilo que alguém lhe levar, mas que recebe sempre com simpatia e também um sorriso quem o visita e lhe corta a solidão. Mas nessa noite o Sr. F. não estava, afugentado pelo barulho e pela confusão.

De entre a multidão, alguns observam o que ali está, a "casa" do Sr. F. Conheço algum daquele olhar. De quem sabe o que está para lá da redoma mas não sabe como lá chegar. Mas não sabem também ainda da irreversibilidade que é chegar ao outro lado, e nunca mais ver o mundo da mesma forma, apenas mais claro e verdadeiro, mas nem por isso mais azul.
Fica-se mais alegre ou feliz quando se chega lá/aqui?... Ocorre-me a resposta repetida do Sr. F. quando lhe perguntamos como vai a vida... "mais ou menos". Porque afinal tudo o que existe, e se sente é "mais ou menos", e todos somos também o que decidimos ser, ou "mais ou menos". E se calhar a felicidade vem a seguir, ou a mais, ou a menos. Mas existe.

2 comentários:

isabel disse...

:)
há tanto mais que se sente e que se vive que contá-lo não basta. Parece sempre uma realidade paralela que não nos afecta e a qual não nos é essencial para viver. Sabendo que a única influência que teremos será a coragem de uma mísera esmola que nem para aquecer a alma serve. Aqueles que com coragem ousam ir mais longe, apercebem-se que há muito mais por detrás dos rostos esfarrapados e com mau aspecto. Há mais para dar, mas para (inconscientemente) receber e aprender. É aí que se encontra o propósito. É aí que nos reconhecemos como seres humanos e sermos para os outros.
Admiro-te.

MOUTEIRA disse...

Miguel: É assim que damos valor a pessoas como tu, por conseguirem vêr para lá das aparências e que têm a sensibilidade para ouvir e partilhar o que se possui, por isso bem hajas.