Há dias cheguei a casa ao final da tarde e não havia luz. Nada de extraordinário, certo? Sobretudo se pensarmos que mais hora menos hora voltamos a tê-la. Mas nesse preciso momento precisei também de água, e não havia. E essa coincidência, que não me lembro de ter acontecido até aí, fez-me reflectir. Numa ideia catastrofista, é verdade, mas que não deixa de ser hipotéticamente possível. Curiosamente, hoje uma notícia do JN diz que a nascente do Rio Tejo está cada vez mais escassa, e as razões não são apenas os desvios que os "nuestro hermanos" fazem dos cursos fluviais, como todos nós sabemos, mas razões de escassez de recursos em que preferimos não querer pensar.
Há uma pergunta que me surge: se em algum dia a água e a luz, cujo controlo está entregue a empresas de fornecimento a quem pagamos, tivessem o fornecimento com os dias contados, ou com a necessidade de serem racionados, será que essas empresas nos informariam disso? Isto é, se só houvesse água potável para 15 dias, e luz para outros tantos, essas empresas: 1) informavam esse facto? 2) pediam um racionamento ?, ou 3) nada diziam e tentavam resolver a situação arriscando-se ao colapso sem nenhuma informação?
Talvez pudesse colocar outras hipóteses, mas com a política de mercado que vejo, e com o receio do pânico, da perda de lucros, eu sei lá, ocorreu-me que a última hipótese pode ser a mais provável. Quanto à luz, no caso da falha total, ela seria visível de facto. Já com a água...pergunto-me de que é que as empresas se lembrariam para não deixar de vender água...ou qualquer coisa parecida com ela.
Mas pensem só na electricidade. Em toda a que é necessária quer para as nossas casas, quer para o trabalho e as máquinas, sejam de que tipo fôr e que precisem dela para trabalharem. Ou melhor, pensem na falta dela, a sério, não durante 1 hora, nem 2, nem 1 dia, nem 2, nem numa semana, mas sem prazo, ou mesmo indefinidamente. Eu sei que haveria sempre uma mente brilhante (as pessoas sempre foram peritas a ter ideias brilhantes em momentos trágicos ou de catástrofe, mas quando tudo está bem todos são tão inteligentes que não conseguem ter a ideia brilhante de poupar os recursos!) alguém que arranjaria uma solução a curto ou médio prazo, mas imaginem que nenhuma solução é possível. 100% sem electricidade.
Ok, eu sei que gosto de comer, e uma das minhas primeiras ideias é o frigorífico. E não é que não hajam outras soluções, mas têm que concordar que as vemos um bocado bem lá na idade da pedra, como a salga ou fumeiro. Mas depois há pessoas que não podem comer muito sal (fumam ou comem coisas bem piores, mas ok), e quem não goste de coisas fumadas (lá tínhamos que comer presuntinho de manhã como nas aldeias, que chatice). Voltando a falar a sério, já pensaram a quantidade de refeições e alimentos que temos dependentes do nosso frigorífico, para já não falar da arca frigorífica? (eu sei, eu sei, passávamos a comprar mais frescos, ok, mas a sério, pensem na nossa dependência real que está em causa; nem toda a gente está hoje em dia virada para mudanças de hábitos como essa)
Não me vou alongar muito mais porque é fácil descobrirem tudo aquilo que nos rodeia e que trabalha a electricidade. Mas há uma coisa que gostava de lembrar: computadores e toda a informação que metemos lá para dentro (ou para CD ou DVD ou Pen Drive ou Discos Externos e todas as outras engenhocas que existem mas que precisam - excepto as que usam pilhas - de ser alimentadas eléctricamente).
Lembrei-me de ter acabado de fazer as minhas backups e pensar "ah, agora sim, estou descansado, já tenho tudo guardadinho", e no dia seguinte CAPUT, não há mais electricidade. Enquanto a bateria der, ok, mas e depois? E isto ao nível global, a quantidade de informação armazenada que precisa de ser trabalhada e que não pode ser acedida de outra forma? E a própria memória histórica das nossas sociedades. Sim, porque também nos dizem que temos que poupar no papel (e é verdade), os livros vão passando a e-books, e um dia destes temos tudo lá dentro, até as instruções para o controlo das nossas casas...é verdade...ainda mais essa...
Catastrofista, pessimista, talvez... mas isto ocorreu-me por pensar que temos que tratar desta nossa dependência em relação a estas coisas. Sei que podem surgir soluções de armazenamento, leitura de dados, uso de outras fontes de energia, mas eh pá, façam isso, inovem, mas também pensem em não gastar os recursos como se eles fossem eternos, porque não são. Sabem de quantos planetas iguais ao nosso precisávamos se todo o planeta consumisse recursos como a população da América do Norte, por exemplo? 5 (vi num documentário recente na internet). Por isso se anda em corridas desenfreadas para conseguir pôr um homem a viver o mais depressa possível na lua, que é para se começar a consumir outros 4 mais depressa (e são americanos, que coincidência). E quem não puder ir para lá? Em vez de 1º, 2º e 3º mundos, vamos ter 1º, 2º e 3º planetas, certo? Assim não vamos lá.
Poupar é o primeiro passo. Com imaginação, tudo se consegue. Foi assim que acabámos por dominar este planeta. E vai ter que ser assim para evitarmos a nossa própria destruição. Ou pelo menos a destruição daqueles que não tiverem a possibilidade de emigrar para o espaço.
(Imagem tirada daqui)

