"No country for old man", é o título original deste filme que estreou hoje em Portugal, mas que provavelmente só vi hoje porque, de entre 4 filmes que gostaria de ver, era o único em cartaz no Norte Shopping. E valeu a pena, ainda que pela reacção de grande parte do público, o filme tenha parecido uma seca, tanto que esta gente parece mais habituada a finais convencionais hollywoodescos. Mas não vou contar o final, podem ficar descansados.
Quando saí da sala perguntei, e perguntei-me, sobre as razões que aquele filme teria para ganhar o óscar de melhor filme (razões mesmo sérias, e não apenas as dos cifrões e das "mafias" do show biz), e dei comigo a chegar a conclusões que aqui gostava de transcrever apenas para tentar convencer aqueles que começarão a ouvir dos amigos que o filme é uma seca.
Não sei se há muita gente que sinta isto (e eu ainda não cheguei aos 40), mas sabem daquela sensação, quando olhamos algumas vezes para crianças em volta de um computador sobre o qual teimamos em não compreender pormenores, ou então, no outro extremo, quando vemos situações e acontecimentos no nosso mundo, no nosso país, ou até mesmo na nossa cidade, que nos parecem incríveis, ou demasiado maus para ser verdade, e pensamos: "como é que é possível acontecer isto", "onde é que isto vai parar","como é que há gente assim?", "como é que se cometem certos crimes", "como é possível que certas pessoas e jovens pensem desta forma", ou apenas "porque é que não compreendo esta ou aquela acção de alguém, esta ou aquela forma de pensar dita mais moderna"? Não há necessáriamente em todas estas situações um debate de gerações, mas esse debate, esse confronto, umas vezes pacífico, outras não, é algo de muito real, sempre existiu e há-de existir, e põe em rota de colisão mundos com diferentes formas de ver a realidade, e de objectivos também.
Todos nós nos tentamos adaptar ao longo da vida, é algo que faz parte da natureza humana, embora uns o consigam melhor do que outros. Mas às vezes, em certas situações (mesmo que na prática o não façamos ou nos recusemos a fazê-lo, ainda que apenas inconscientemente), parece que há um ponto de não retorno, em que a nossa mente baixa os braços, em que nos vemos numa redoma de vidro, e embora ainda consigamos tocar a realidade lá fora, já não conseguimos passar totalmente para o lado de lá, já não conseguimos compreender certos modos, certas atitudes, certas coisas que nos parecem simplesmente ridiculas, ou exageradas, ou sem sentido, ou simplesmente más, porque estranhas para nós. É claro que isso se torna mais óbvio para uns do que para outros, dependendo da força de vontade de cada um em resistir a essa ultrapassagem pelas coisas que vão acontecendo no fio da vida, ou até da idade ou situação na vida.
Este filme fala também disso (a meu ver) além de outras coisas. Fala da distância entre o mundo que vem de trás, que assiste à mudança, que não compreende como se pode ter chegado ali, e que dentro de uma redoma, não tem força para mudar e mudar-se, simplesmente porque não compreende a origem de tudo aquilo, (representado no Xeriff-Tommy Lee Jones-) e o mundo que nasce, que age à revelia das regras tradicionais, e que é louco o suficiente, não só para esmagar o que vem de trás, como para se afogar na própria ignorância de si próprio e do trilho que traça, desdenhando qualquer dos valores tradicionais por um qualquer objectivo pessoal, ou até criando princípios radicalmente novos para si próprio.
O absoluto destas evidências contrasta depois com a relatividade/fragilidade das coisas, dos acasos da vida e das personagens de todos os que intervêm na acção, muito ao jeito das personagens criadas pelos irmãos Cohen, como eu já vira em "Fargo", mesmo para um vilão tão sinistro e aparentemente tão poderoso como o que é representado magistralmente por Javier Bardem (o inquisidor Irmão Lorenzo d'Os Fantasmas de Goya").
Um bom exercício de reflexão do mundo actual, e um filme, no meu entender, não só para a galeria dos vencedores de Hollywood, mas também para a galeria da história da sociedade humana.
Verão que vale a pena.

3 comentários:
sem dúvida. não é nenhuma seca de filme, só pede um pouco mais da nossa atenção do que as habituais narrativas de Hollywood,tão fáceis de assimilar como os reclames da coca-cola que dão antes do filme :b
gostei muito da descrição que fizeste, eu não diria melhor :)
beijinhos**
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Obrigado Tita, também achei que gostarias do filme quando o visses. :)
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