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22 de Novembro de 2007

Fim de dia

Estava na paragem havia 2 minutos. Só faltava um último autocarro para apanhar e ele estaria em casa depressa. Para fazer o resto do trabalho. Para fazer o que é correcto e ganhar forças para o dia seguinte. Olhando para o lado viu já um "705" com o motorista a acender as luzes e pronto a arrancar, e que servia perfeitamente. A música do mp3 ajudava-o a aguentar melhor o frio e a água da chuva, num final de dia como tantos outros. E foi então que ouviu:

- Ei! Ei!
Seria com ele? O tipo berrava mesmo alto.
- Ei! Ei!

Reparou que era mesmo com ele, e já sabia quem era. Um pobre desgraçado que aquela hora estava ali sempre para apanhar o 604, e que volta e meia se metia com alguém a querer que o cumprimentassem, um coitado, que afinal, e logo aquela hora, em que o que ninguém quer é que nos chateiem, lá aparecia aquele chato, um "deficiente", a quem alguns não ligavam nenhuma, e a quem outros apenas cumprimentavam para se livrarem dele.

- Ei! Ei!

A ouvir o mp3, olhando para um lado e para o outro da paragem, lá dava para disfarçar, à espera que o homem desistisse de o chamar. E eis que o autocarro se moveu e veio para a paragem. E ele voltou-se, dando de caras inevitavelmente com o homem que tão alto o chamava, pois o mesmo se levantou de imediato. E que lhe fez uma pergunta em altos brados que ele não percebeu.

«Ok, deixa lá ver o que quer o homem» Tirou um dos auscultadores do ouvido, e cumprimentou a mão que o pobre homem lhe estendeu. E mais uma vez ele fez algo que lhe pareceu uma pergunta, mas que não percebeu. Até que à terceira as palavras se tornaram inteligíveis.

- Portugal! Era para saber como está Portugal! Não 'tá a ouvir?
- Ah, isso! Não sei. Estou a ouvir música.
- Ah! Deixe lá então. Obrigado.

Começou então nesse momento aquele sentimento de patetice misturado com vergonha, ou culpa ou qualquer coisa do género que tenta limpar uma nódoa com um produto que ainda a faz aumentar mais.

- Mas eu vi que há pouco estava 0-0. A sério, vi há pouco que estava 0-0.
Ainda que o "há pouco" tivesse sido há meia hora. Mas enfim. Devia servir. Tinha que servir.
- Obrigado - respondeu o homem, que se voltou a sentar.

No autocarro tentou lembrar-se se o homem tinha ficado ou não satisfeito com a resposta, mas acho que ainda agora não se deve lembrar. Mas lembra-se de não ter ficado nem um pouco satisfeito com a sua própria resposta, ou se tinha dado de facto alguma que se aproveitasse.

3 comentários:

rakka disse...

há dias, enquanto esperava pelo metro, apareceu um cego. Todas as pessoas à espera do metro, mal se aperceberam do cego ficaram a olhar fixamente para ver como ele batia com a bengala nas coisas e com curiosidade de ver como ele se desenrascava. Quando se aproximou da linha do metro, todos os que estavam perto fizeram por se afastar dele de forma desfarçada para ninguém os ollhar de lado. mas que raio! aproximei-me... "é na direcção do estádio do dragão que quer ir?", "sim, sim" - disse o homem. e lá o ajudei a entrar para o metro.
não percebi se as pessoas têm esta atitude por ele ser cego, por ser de cor escura ou as duas coisas juntas. mete-me confusão o facto de as pessoas ficarem reticentes em ajudar, quando se trata de uma pessoa que realmente precisa da nossa ajuda.
é verdade que há para aí muita gente enganosa, mas quem somos nós para julgar os outros? não custa nada dar uma mão na hora certa.

Ele cumprimentou o senhor que queria saber de Portugal e respondeu-lhe. Ainda que não estando a ganhar Portugal, o homem agradeceu. E acho que é isso que interessa.
:*
(que comentário mais longo.. :s sorry)

rakka disse...

gostei da tua atitude com a senhora que estava ao pé da churrascaria... :*

DAVIDE MIRANDA disse...

São inumeras as vezes em que no quotidiano, somos insensiveis ou tão somente resultante de um egoismo egocentrico, nos esquecemos, do seguinte;
que não somos aquilo que fazemos nem aquilo que aparentamos! E talvez por isso fazemos, erradamente, juizos de valor...

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