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Estão abertas as inscrições para voluntários, famílias de acolhimento aos jovens, ou para simplesmente participar neste evento que trará à Invicta as Fontes da Alegria!

26 de Outubro de 2009

Sobre as declarações de Saramago...

...um comentário interessante, sobre a necessidade de contextualizar aquilo que lemos, quer seja a Bíblia, que seja qualquer outra obra antiga. Uma questão puramente intelectual. Porque é nisso que José Saramago meteu os pés pelas mãos. A questão religiosa é outro assunto.

O ridículo, para mim, nesta situação "polémica" das declarações de Saramago, é ver um escritor a quem se reconhece um determinado nível intelectual, capaz de criar imagens e temas literários interessantes, e depois vê-lo a derramar ignorância numa questão, para mim, tão simples. E que é o facto de see necessário colocar uma obra literária no seu devido contexto histórico, cultural, social e até moral, se isso fôr necessário, para se poder compreender e criticar o que se lê. Não é preciso nenhum teólogo à cabeceira. Basta método e bom senso.

23 de Outubro de 2009

[Ser cristão = (agir + amar) ] = aventura + novidade

Numa altura em que todas as semanas me contam sempre algo diferente, e que até precisava de alguma rotina e repetição para não me esquecer de tanto que me dizem e que é preciso fazer, esta semana bateu todos os recordes de imprevisibilidade. É como se a semana que agora acaba nada tenha que ver com mais nenhuma deste ano, desta vida. Até devia ser assim, não fosse eu não estar muito habituado.

Não vou relatar as minhas aventuras, porque ainda não tenho idade para escrever um livro (quando tiver assim velhinho como o Saramago, aventuro-me; que é para poder dizer todos os disparates que me vierem à cabeça) (isto foi hoje à noite, e dava outra crónica...)

Hoje de manhã um amigo disse-me: "Eu gosto do Sócrates, acho que fez coisas boas". Embora eu tenha uma opinião diferente, aquela afirmação interpelou-me. Nada que tenha que ver com a sua opinião política, mas centrei-me apenas na iniciativa tomada pelo meu amigo em me dizer aquilo. Pôs-me a pensar. Sei que foi sincero no que disse, e também sei que não é filiado no PS, nem tem particularmente simpatias politicas. É apenas (e já não é assim tão comum nos tempos de hoje) uma pessoa interessada no que se passa no seu país, e na importância de uma opinião informada e interessada. Embora sejamos amigos, nunca falámos de política antes, ele não sabia de antemão qual a minha inclinação política, se eu gosto ou não do Sócrates, se a sua iniciativa em dizer-me seria ou não politicamente correcta, se entraríamos em confronto de ideias ou não. Foi directo, sincero, honesto. Lembrei-me de pensar quantas pessoas o fariam da forma que ele o fez, e dei-me conta de que não seriam tantas como isso, e até talvez a começar por mim, noutro ambiente, com outras pessoas. Formar uma opinião com base na nossa própria maneira de ver as questões, e não contaminados, dependentes mesmo, de ideias pré-concebidas ou predominantes à nossa volta, e exprimi-la sem medos, aí está um bom desafio.

4ª feira à noite; temporal no Porto, mas também dia de "Champions"; momento de oração de Taizé nas igreja das Taipas, que às 21,30 estava apinhada de gente sentada, mas também no chão, e de pé. Gente que respondeu ao apelo do Encontro Ibérico, que quer procurar as fontes da alegria, que não o dizendo expressamente, apresenta-se "dizendo" para o que está, e o que quer. Em noite de inverno, senti as Taipas como um lugar ao mesmo tempo acolhedor, pequeno, recolhido, estranhamente silencioso (com tanta gente, como em Taizé), onde o mundo parou naquela hora, mas também grande, imenso, com o pulsar do Porto, frenético mesmo, com um final avassalador de perguntas, duvidas, trocas de informações, convívio, festa, reuniões. Alguém pedia que o sossego voltasse de novo à "nossa" igreja das Taipas, mas acho que também é bom assim, sentir o ferver da vontade das pessoas. Se lhes tivessem perguntado no dia seguinte o que fizeram nessa noite, será que responderam, à maneira decidida do meu amigo, "Fui a uma oração de Taizé"?

4ª feira à tarde: o fim de uma série de 3 dias em que tentei ajudar um amigo da rua a sair de um "buraco", em que dei o meu tempo e mais alguma coisas com a esperança e a certeza de que conseguiria ter resultados, e tudo acabou em mentiras, em desilusão (nada de novo nestas andanças, dirão, mas que para mim foi a primeira vez). Um dia de chuva que não acabou cinzento mas negro, e em que os porquês estalavam na cabeça como agulhas, e andei em círculos debaixo da chuva à espera que um qualquer grilo falante aparecesse e me dissesse que afinal tinha mesmo razão, quando essa mesma razão já tinha ido pelo esgoto há horas. Ironia das coisas, esperei 2 horas numa livraria, a ler "O Solista", por um sem-abrigo que supostamente estaria a viver o seu dia M (de Mudança), mas que nunca mais apareceu. Infelizmente para ele, não sei se felizmente para mim, talvez tenha acabado por ser bom assim. Ainda não sei quem aprendeu mais, eu ou ele, mas eu aprendi de certeza. 1001 coisas passaram pela cabeça, desistir também foi uma delas, mas isso seria sempre o mais fácil. Sei que nessa altura ainda não tinha falado com o meu amigo que gosta do Sócrates, nem tinha visto toda aquela gente nas Taipas, mas acho que já sabia porque é que fiz o que fiz, e que tenho que continuar a fazer. Fazer para poder Ser. Explico-me.

Até há 2 meses, não pensava assim, mas hoje tenho a certeza que existe uma mensagem, que nem toda a gente conhece, que nem toda a gente aceita, mas que mexe com o que as pessoas sentem, acreditam, vivem. A mensagem fala de atenção ao que nos rodeia, aos sentimentos e necessidades de cada um que por nós passa, a quem precisa, mesmo que nada venha em troca, porque não é isso mais importante. Fala de amor, de entrega. De darmos sentido e uso ao que nos faz únicos, a esta capacidade humana de construir laços e coisas que se renovam todos os dias. De estender a mão e ousar fazer o impossível. Hoje é fácil etiquetar as pessoas com cores partidárias, com ideias, anúncios, modas. Mais difícil será porventura vestir o hábito e ser o monge ao mesmo tempo. Não sou melhor nem pior que os outros. Mas tenho percebido que ou somos, ou não somos. No meio é que não somos nada. Ser cristão não é fazer parte de um clube, não é ter os domingos ocupados numa hora para a missa, não é saber orações de cor e salteado, não é ajudar uma hierarquia religiosa só porque há actos que têm de ser assegurados, não é dar a esmola na missa só porque fica bem, não é cumprir promessas porque senão vai-se para o inferno, não é armar-se em santinho, não é andar a tentar converter os outros por se achar (imagine-se, nós acharmos, o que é giro) que é o que Deus quer, enfim.....já perceberam a ideia.

Isto afinal já vai mais longo do que eu queria. E por uma coisa afinal tão simples, que dirigiu a minha semana, e que lhe dá todo sentido. É claro que não é preciso ser-se cristão para se ter atenção aos outros, nem para amar. Na minha maneira de ver, ser-se crente ou não crente, cristão ou de outra religião não passa de um caminho, e da conjunção de vários factores e opções na história pessoal de cada um. O que eu quero dizer, é que para quem diz e se assume como tal, isto de ser cristão pode ser tanta coisa, como não ser nenhuma, depende do uso e da consequência que se lhe der. Se não se der uso nenhum, sinceramente, nem sei para que é que serve. Se se der uso, é uma nova aventura todos os dias.

"A estrada da tua felicidade não parte das pessoas e das coisas para chegar a ti; parte sempre de ti em direcção aos outros." (Michel Quoist)

21 de Outubro de 2009

Para quem quer ajudar e não tem tempo de ir a qualquer lado...Ser solidário no Multibanco!


Para quem quer ajudar, e não tem tempo, já o pode fazer junto de qualquer Multibanco.

Basta visitar o site da Cruz Vermelha aqui, e é só seguir as instruções, neste caso direccionado para a ajuda aquela instituição, mas que também pode ser feita para outros que ali aparecem indicadas.

17 de Outubro de 2009

Sugestão: "O Solista" (The Soloist)

Há dias ouvia dizer na rádio um comentador de cinema que esta altura do ano, de há uns tempos para cá, se tornou fraca quanto à exibição de filmes realmente interessantes e comerciais, porque as produtoras guardam os melhores para a época do Natal. Mas desta vez enganaram-se redondamente. Comercial, talvez não seja, porque se calhar pouco "hollywoodesco", mas que este filme é um dos melhores do ano, disso não tenho qualquer dúvida.

Poucos filmes há, como este, que logo a meio, nos dão vontade de sair da sala. Não porque seja mau, mas porque nos colocam a questão na cabeça "mas que raio estou eu aqui a fazer?". E quando saímos, o mundo já não é igual, e das duas uma: ou fazemos realmente alguma coisa de diferente, ou tapamos os olhos da nossa cabeça, pensamos em duas tretas que são mais fáceis, e acabamos por esquecer, por fugir.

Acho que exactamente porque estamos nesta altura, daqui a pouco no Natal, e daqui a pouco com corridas infernais para ter tudo em casa, com os nossos amigos e familias, este filme é oportuníssimo, e uma oportunidade de reflectir na realidade que nos rodeia, sobretudo nas grandes cidades, mas já também nas mais pequenas. Num mundo de pessoas, sim, PESSOAS, que vivem num limiar de sobrevivência que nos é difícil imaginar, e às quais se calhar o mais importante não é SÓ chegar com comida, mas sobretudo com presença, com tempo para as ouvir, para saberem que não estão sozinhas, ainda que muitas das vezes rodeadas de multidões.

E sabem que mais? O mundo de miséria e aversão que o filme nos mostra, numa cidade com 90 mil sem abrigos como Los Angeles é mesmo real, não é só um filme. E aquilo até existe aqui ao lado, no Porto por exemplo. Ver este filme fez-me viajar mentalmente para situações e pessoas que conheço e que são REAIS, pessoas que dormem REALMENTE em papelões, com ratos e piolhos à volta, que comem o que aparece, quando aparece, que criam defesas com discursos ininteligíveis porque já ninguém as quer ouvir, que bebem e drogam-se porque ou não souberam ou não lhes quiseram dar uma oportunidade, e porque quando se está na rua, sem saber se se está vivo ou não quando acordar é facil querer fugir da realidade; que se agarram a qualquer pessoa ou esperança de poderem sair dali e lhes chamam anjos ou protectores (como o "deus" que o Nathaniel chama ao jornalista), mas que também sabem sorrir , conversar, contar anedotas, dizer obrigado, perguntar pela nossa vida como se nós tivessemos problemas que se comparassem com muitos dos deles.

Também os problemas do jornalista são reais, o fosso que separa as nossas preocupações do dia, às vezes tão triviais e pequenas com o que é preciso fazer, com o que nós podemos fazer para ajudar um bocadinho, nem que seja só a amizade (afinal o que mais importa) por quem está ali ao lado, e que parece tão invisivel por vezes. Como também no filme se vê, há de tudo um pouco. Mas não é tudo mau e inacessível. E não é preciso descobrirmos génios como o Nathaniel para se ter vontade de ajudar. Há muita gente que é tão génio como nós, é IGUAL. Custa assumir isto, mesmo para quem faz já alguma coisa deste género. É um muro a ultrapassar todos os dias. Mas é a pura verdade. Que os medos, anseios, loucuras e desejos sejam outros, é verdade, porque todos somos diferentes. Mas são IGUAIS.

Há filmes que vale a pena ver. Este é um deles. Já será um começo :)